Archive | June, 2013
17 Jun

Por vezes, quando um copo de vinho não é o suficiente, uma solidão bruta ergue-se dentro de ti. Absorve tudo – das almas às paredes dos abrigos – mas não é, como poderia pensar numa primeira instância, avassaladora. Simplesmente, existe, sempre lá esteve, e tu não estavas atento o suficiente para dar pela sua presença.

E não há pessoa que possa preencher esse vácuo. Porque uma pessoa no vácuo é isso mesmo: um objecto no vazio. Um outro ser a boiar numa expansão negra, com fronteiras fictícias. O vazio está à nossa volta, mas também somos nós. A única resposta era preencher caoticamente o vazio com os ódios, os amores e as complexidades das existências humanas. Mas era uma operação fútil: a solidão continuava lá e inspirava uma raiva que te virava contra todos os que se aproximavam.

Um dia pensaste – talvez o vazio seja Deus. Mas deus, esse sim, estava fora dele; era tudo o que o transcendia. E assim, transcendia-te a ti também.

Por isso preencheste o vazio com livros e melodias tristes, com filosofias e conversas de superioridade intelectual. Derramaste depois nessa solidão o teu corpo e os seus meandros húmidos. Mas entre dois gemidos, continua a haver um espaço em branco.

E aí encontraste, talvez, uma verdade humana: o problema não é o vazio, que é omnipresente e imortal. O teu problema talvez seja o teu incómodo com ele.